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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Os gêmeos que fizeram a Morte dançar.-Por Milson Onilèétoo




Na velha aldeia de Ifá tudo transcorria normalmente.
Todos faziam seu trabalho,
as lavouras davam seus bons frutos,
os animais procriavam,
crianças nasciam fortes e saudáveis.
Mas um dia
a Morte resolveu concentrar ali sua colheita.
Aí tudo começou a dar errado.
As lavouras ficaram inférteis,
as fontes e correntes de água secaram,
o gado e tudo o que era bicho de criação definharam.
Já não havia o que comer e beber.
No desespero da difícil sobrevivência,
as pessoas se agrediam umas às outras,
ninguém se entendia, tudo virava uma guerra.
As pessoas começaram a morrer aos montes.
Instalada ali no povoado, a Morte vivia rondando todos,
especialmente as pessoas fracas, velhas e doentes.
A Morte roubava essas pessoas e as levava para o outro mundo,
longe da família e dos amigos.
A Morte tirava a vida delas.
Na aldeia morria-se de todas as causas possíveis:
de doença, de velhice, e até mesmo ao nascer.
Morria-se afogado, envenenado, enfeitiçado.
Morria-se por causa de acidentes,
maus-tratos e violência.
Morria-se de fome, principalmente de fome.
Mas também de tristeza, de saudade
e até de amor.
A Morte estava fazendo o seu grande banquete.
Havia luto em todas as casas.
Todas as famílias choravam seus mortos.

O rei mandou muitos emissários falar com a malvada,
mas a Morte sempre respondia que não fazia acordos.
Que ia destruir um por um, sem piedade.
Se alguém fosse forte o suficiente para enfrentá-la, que tentasse,
mas seu fim seria ainda muito mais sofrido e penoso.
Ela mandou dizer ao rei, por fim:
“Para não dizerem que sou muito rabugenta,
até concordo em dar uma chance à aldeia.”
E ria e escarrava ao mesmo tempo, dizendo:
“Basta que uma pessoa me obrigue a fazer o que não quero.
Se alguém aqui me fizer agir contra a minha vontade,
eu irei embora.”
Depois, cuspindo nos seus interlocutores, completou:
“Ma só vou dar essa oportunidade a uma única pessoa.
Não vou dar nem a duas, nem a três.”
E foi-se embora dali,
saboreando antecipadamente mais uma vitória.

Mas quem se atreveria a enfrentar a Morte?
Quem, se os mais bravos guerreiros estavam mortos
ou ardiam de febre em suas últimas horas de vida?
Quem, se os mais astutos diplomatas havia muito tinham partido?
Foi então que dois meninos, os Ibejis,
os irmãos gêmeos Taió e Caiandê,
que os fofoqueiros da cidade diziam ser filhos de Ifá,
resolveram pregar uma peça na horrenda criatura.
Antes que toda a aldeia fosse completamente dizimada,
eles resolveram dar um basta aos ataques da Morte.
Decidiram os Ibejis:
“Vamos dar um chega-pra-lá nessa fedorenta figura.”

Os meninos pegaram o tambor mágico, que tocavam como ninguém,
e saíram à procura da Morte.
Não foi difícil achá-la numa estrada próxima,
por onde ela perambulava em busca de mais vítimas.
Sua presença era anunciada, do alto, por um bando de urubus
que sobrevoavam a incrível peçonhenta.
E o cheiro, ah, o cheiro!
A fedentina que a Morte produzia à sua volta
faria vomitar até uma estatueta de madeira.
Os meninos se esconderam numa moita
e, tapando o nariz com um lenço,
esperaram que ela se aproximasse.
Não tardou e a Morte foi chegando.
Os irmãos tremeram da cabeça aos pés.
Ainda escondidos na moita,
só de olhar para ela sentiram
como os pêlos dos seus braços se arrepiavam.
A pele era branca, fria e escamosa;
o cabelo, sem cor, desgrenhado e quebradiço.
Sua boca sem dentes expelia uma baba esbranquiçada e purulenta.
Seu hálito era de um fedor tremendo.
Mas podia-se dizer que a Morte estava feliz e contente.
Ela estava até cantando!
Pudera, tendo ceifado tantas vidas
e tendo tantas outras para extinguir.
Mas o canto da Morte era tão cavernoso e desafinado
que os passarinhos que ainda sobreviviam
silenciavam como se fossem mudos brinquedos de pedra.
O canto da Morte, se é que podemos chamar aquele ruído de canto,
era tão desconfortável e medonho
que os cachorros esqueléticos uivavam feito loucos
e os gatos magrelos bufavam e se arrepiavam todos.
Nesse momento, numa curva do caminho,
enquanto um dos irmão ficava escondido,
o outro saltou do mato para a estrada,
a poucos passos da Morte.
Saltou com seu tambor mágico,
que tocava sem cessar, com muito ritmo.
Tocava com toda a sua arte, todo o seu vigor.
Tocava com determinação e alegria.
Tocava bem como nunca tinha tocado antes.
A Morte se encantou com o ritmo do menino.
Com seu passo trôpego, ensaiou um dança sem graça.
E lá foi ela, alegre como ninguém,
dançando atrás do menino e de seu tambor,
ele na frente, ela atrás.
O espetáculo era grotesco,
a dança da Morte era, no mínimo, patética.
Nem vou contar como foi a cena:,
cada um que imagine por conta própria.
E é bem fácil imaginar.
Bem; lá ia o menino tocador
e atrás ia a Morte.
Passou-se uma hora, passou-se outra e mais outra.
O menino não fazia nenhuma pausa
e a Morte começou a se cansar.
O sol já ia alto, os dois seguiam pela estrada afora,
e o tambor sem parar, tá tá tatá tá tá tatá.
O dia deu lugar à noite
e o tambor sem parar, tá tá tatá tá tá tatá.
E assim ia a coisa, madrugada adentro.
O menino tocava, a Morte dançava.
O menino ia na frente, sempre ligeiro e folgazão.
A Morte seguia atrás, exausta, não agüentando mais.
“Pára de tocar, menino, vamos descansar um pouco”,
ela disse mais de uma vez.
Ele não parava.
“Pára essa porcaria de tambor, moleque,
ou hás de me pagar com a vida”,
ela ameaçou mais de uma vez.
E ele não parava.
“Pára que eu não agüento mais”, ela implorava.
E ele não parava.
Taió e Caiandê eram gêmeos idênticos.
Ninguém sabia diferenciar um do outro,
muito menos a Morte, que sempre foi cega e burra.
Pois bem, o moleque que a Morte via tocando na estrada sem parar
não era sempre o mesmo menino.
Uma hora tocava Taió, enquanto Caiandê seguia por dentro do mato.
Outra hora, quando Taió estava cansado,
Caiandê, aproveitando um curva da estrada, substituía o irmão no tambor.
Taió entrava no mato e acompanhava a dupla sem se deixar ver.
No mato o irmão que descansava podia fazer xixi,
beber a água depositada nas folhas dos arbustos,
enganar a fome comendo frutinhas silvestres.
Os gêmeos se revezavam e a música não parava nunca,
não parava nem por um minuto sequer.
Mas a Morte, coitada, não tinha substituto,
não podia parar, nem descansar, nem um minutinho só.
E o tambor sem cessar, tá tá tatá tá tá tatá.
Ela já nem respirava:
“Pára, pára, menino maldito.”
Mas o menino não parava.
E assim foi, por dias e dias.
Até os urubus já tinham deixado de acompanhar a Morte,
preferindo pousar na copa de umas árvores secas.
E o tambor sem parar, tá tá tatá tá tá tatá,
uma hora Taió, outra hora Caiandê.
Por fim, não agüentando mais, a aparição gritou:
“Pára com esse tambor maldito
e eu faço tudo o que me pedires.”
O menino virou-se para trás e disse:
“Pois então vá embora e deixe a minha aldeia em paz.”
“Aceito”, berrou a nauseabunda, vomitando na estrada.
O menino parou de tocar e ouviu a Morte dizer:
“Ah! que fracasso o meu.
Ser vencida por um simples pirralho.”
Então ela virou-se e foi embora.
Foi para longe do povoado, mas foi se lastimado:
“Eu me odeio. Eu me odeio.”
Só as moscas acompanhavam a Morte,
circundando sua cabeça descarnada.
Tocando e dançando,
os gêmeos voltaram para a aldeia
para dar a boa notícia.
Foram recebidos de braços abertos.
Todos queriam abraçá-los e beijá-los.
Em pouco tempo a vida normal voltou a reinar no povoado,
a saúde retornou às casas e a alegria reapareceu nas ruas.
Muitas homenagens foram feitas aos valentes Ibejis.
Mesmo depois de transcorrido certo tempo,
sempre que Taió e Caiandê passavam na direção do mercado,
havia alguém que comentava:
“Olha os meninos gêmeos que nos salvaram.”
E mais alguém complementava:
“Que a lembrança de sua valentia
nunca se apague de nossa memória.”
Ao que alguém acrescentava:
“Mas eles não são a cara do Adivinho?”


domingo, 13 de junho de 2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Conferência defende cota para negros na TV


Brasília, 10/11/2009

Evento que mobilizou ativistas e membros do governo propõe regra para garantir a negros e índios 20% das vagas em rádio e televisão

DAYANNE SOUSA

Conferência que reuniu ativistas e membros do governo aprovou a criação de cotas para artistas e jornalistas negr@s no rádio e na televisão. A II CONAPIR (Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial) propôs que negr@s e indígenas sejam 20% das equipes de rádio e televisão e 30% do elenco de propagandas do governo.

As resoluções da Conferência servem de orientação para tomadas de decisões no governo. Durante a CONAPIR, foram aprovadas 761 medidas, em áreas como saúde, educação, segurança e cultura.

O relatório final da CONAPIR não determina de que forma a cota seria estipulada. O texto diz apenas que deve-se “garantir uma política de participação de 20% de negr@s, povos indígenas e outras etnias discriminadas”. Para Vera Barcellos, do Núcleo de Jornalistas Afro-brasileir@s do Rio Grande do Sul, é preciso que as cotas virem lei. As empresas de comunicação seriam obrigadas a contratar um determinado percentual de negr@s e índios. “No momento, o país não oferece igualdade, só regulando a mídia para ela ser mais democrática”, diz Vera.

“Hoje, no Rio Grande do Sul, temos apenas dois jornalistas negros nas bancadas da televisão”, conta, “nem nos canais comunitários e fechados há espaço”.

O texto da CONAPIR, que ocorreu de 25 a 28 de junho, vai ao encontro de ideais consolidados recentemente no Estatuto da Igualdade Racial, aprovado no Congresso. O documento determina que “na produção de filmes e programas destinados à veiculação pelas emissoras de televisão e em salas cinematográficas, deverá ser adotada a prática de conferir oportunidades de emprego para atores/atrizes, figurantes e técnic@s negr@s”.

O relatório da Conferência destaca ainda que @s negr@s atuem também em papéis principais. “Não é só ter uma Helena negra”, afirma Vera, se referindo à protagonista de Viver a Vida, da Rede Globo, interpretada pela atriz Taís Araújo. “Ela é a principal, mas a sua família não é do primeiro núcleo, ela vive com um homem rico e branco”, observa.

Outra proposta para os meios de comunicação obriga-os a veicular programas sobre a cultura africana. A ideia é que 20% da programação seja voltada para esses temas.

A CONAPIR é um modelo de conferência que permite a participação do público em assuntos de políticas públicas. Numa primeira fase, pequenas reuniões com entidades comunitárias e administrações municipais e estaduais levantaram propostas. Todas elas foram discutidas em plenário em Brasília, que determinou as que iriam para o relatório final.

Desigualdade entre negros e brancos cai na educação, mas com pouco impacto na renda


Brasília, 05/04/2010

Matrícula escolar e analfabetismo entre jovens melhoram mais para pret@s e part@s; diferença entre ganhos no trabalho tem leve recuo.

As disparidades entre negr@s e branc@s têm diminuído na educação, mas isso ainda não se refletiu em queda da desigualdade de renda na mesma proporção, indica o quarto Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, lançado pelo governo federal no fim de março, em Brasília.

Entre a população que trabalha, o rendimento de pret@s ou pard@s melhorou um pouco mais que o d@s branc@s, e a inequidade caiu. Na população como um todo a pobreza encolheu, mas a redução foi semelhante entre os dois grupos — a desigualdade, portanto, se manteve. Na avaliação do estudo, “os dados indicam a persistência de práticas de discriminação”.

A diminuição do abismo entre branc@s e negr@s (pret@s ou pard@s) não é um Objetivo do Milênio específico — aliás, a ausência de um enfoque sobre as desigualdades em geral nos ODM é alvo de críticas de estudiosos. No entanto, representantes da ONU no Brasil têm destacado a importância de que as metas sejam atingidas para todos os grupos. "O gênero, a raça, a etnia e o local de nascimento de uma criança brasileira ainda determinam, em grande parte, suas oportunidades futuras. Essas desigualdades têm repercussões diretas também na saúde da mulher e na razão da mortalidade materna", afirma a coordenadora-residente interina do Sistema das Nações Unidas no Brasil, Marie Pierre Poirier, na apresentação do relatório.

O estudo mostra que a tendência de universalização do ensino fundamental — uma política mais geral, não voltada a determinadas etnias especificamente — beneficiou negr@s e branc@s. Em 1992, o percentual de pessoas de 7 a 14 anos que frequentavam o ensino fundamental era de 75,3% para pret@s ou pard@s e 87,5% para branc@s. Já em 2008, as porcentagens eram praticamente iguais: 94,7% no primeiro caso e 95,4% no segundo.

Um dos efeitos disso foi a queda da desigualdade no analfabetismo. Na faixa etária de 15 a 24 anos, a taxa era de 95,6% para @s branc@s e 86,8% para @s negr@s, em 1992. Já em 2008 os números eram parecidos: 98,7% para @s branc@s, 97,3% para pret@s ou pard@s.

No ensino médio a desigualdade ainda persiste, embora em nível menor. Em 1992, a proporção de branc@s de 15 a 17 anos matriculados no antigo colegial (27,1%) era quase o triplo da d@s negr@s (9,2%). Em 2008, a diferença havia caído para 44% (61% entre @s branc@s, 42,2% entre pret@s ou pard@s). Quanto se adiciona o componente gênero, porém, a questão se agrava. "As negras frequentam menos as escolas, apresentam menores médias de anos de estudo e maior defasagem escolar", afirma o estudo.

Rendimentos

Se o perfil educacional de negr@s e branc@s ficou mais parecido, poderia se esperar que o mesmo acontecesse com o rendimento. Não é o que tem ocorrido. A distância entre trabalhador@s branc@s e @s pret@s ou pard@s diminuiu, mas ainda é grande. Em 2008, estes últimos recebiam somente 56,7% da remuneração dos primeiros, enquanto dez anos antes o percentual era de 48,4%. "Tal diferencial se deve, em grande medida, à menor escolaridade média da população preta e parda, que, no entanto, não é suficiente para explicar as diferenças de rendimentos", afirma o relatório.

O confronto dos dados de 1998 com os de 2008 mostra que, nos dez anos e para todas as faixas de escolaridade, @s pret@s ou pard@s sempre estiveram em situação pior na população ocupada. Ao longo desse período, a desigualdade caiu entre quem tem até 4 anos de estudos ( no máximo o antigo primário, portanto) e quem tem de 9 a 11 anos de estudos (ensino médio completo ou incompleto). Mas não mudou entre trabalhadores com 5 a 8 anos de estudos (antigo ginásio completo ou incompleto) e aumentou entre os que têm superior completo e incompleto.

Quando se leva em conta não apenas os trabalhadores, mas toda a população, a desigualdade se mostra estável. O relatório aponta que, em 1990, 37,1% d@s pret@s ou pard@s viviam abaixo da linha de extrema pobreza do Banco Mundial (US$ 1,25 ao dia, em dólar calculado pela paridade do poder de compra, que desconta as diferenças de custo de vida entre os países). Em 2008, a proporção havia caído para 6,6% — um recuo de 82% no período. Entre os branc@s, a queda foi semelhante (83%): de 16,5%, em 1990, para 2,8%, no ano retrasado.

Os números mostram, portanto, que a proporção de pessoas muito pobres entre @s negr@s é mais que o dobro que entre @s branc@s. Sob esse ponto de vista, a desigualdade racial abre um fosso de cinco anos entre os dois grupos: a extrema pobreza de pretos e partos de 2008 era a mesma que a de brancos de 2003. Como afirma o estudo, apesar dos avanços "o objetivo da igualdade racial requereria uma queda mais acelerada da pobreza extrema entre pret@s ou pard@s".

Fonte:http://www.pnud.org.br/raca/index.php?lay=rac